Quinta-feira, 10 de setembro de 2026
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Notícias Caldo de Piranha

UMA HOMENAGEM ANONIMA

Partiu Toinha, ficou a cultura

Quem será os proximos?

Partiu Toinha, ficou a cultura

Há notícias que chegam como um silêncio. A gente lê, relê e custa a acreditar. Foi assim que recebi, por meio do dileto amigo Joel Praxedes, a notícia da partida de Antonia, a nossa querida Toinha do Popino.

E, de repente, Diamantino parece ter ficado um pouco mais vazio.

Não apenas pela ausência de uma mulher. Mas pela partida de uma guardiã de um saber que não está escrito nos livros, não está nas bibliotecas e, muitas vezes, sequer recebe o reconhecimento que merece. Um conhecimento aprendido com os antigos, passado de geração em geração, carregado nas mãos, na fé, nos costumes e na memória de quem vive e respira a cultura popular.

Toinha era dessas pessoas que não precisavam de palco para serem protagonistas.

Seu palco era a rua.

Era a bandeira percorrendo os caminhos, a devoção aos santos, as festas populares, as rezas, os encontros, as tradições e aquele jeito simples de manter viva uma cultura que, pouco a pouco, vai desaparecendo junto com aqueles que a carregam.

Lembro do seu sorriso. Um sorriso gostoso, espontâneo, daqueles que chegavam antes mesmo das palavras.

Lembro também da velocidade com que caminhava quando as pernas ainda permitiam. Toinha andava depressa, como se tivesse sempre um compromisso marcado com a vida. E por onde passava levava alegria.

Partiu Antonia.

Partiu Toinha.

E hoje a saudade aperta porque sabemos que a cultura popular perdeu mais uma de suas vozes.

É menos uma na percorrida da bandeira.

Menos uma festeira de santo.

Menos uma devota da Imaculada.

Menos uma no viver comunitário.

Menos uma benzedeira.

Menos uma mulher que lutava, à sua maneira, pela cultura popular de Diamantino.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior tristeza: pessoas como Toinha quase sempre são lembradas tarde demais.

Enquanto estão entre nós, parecem fazer parte da paisagem. Estão ali, participando das festas, das rezas, das tradições, conversando com os mais velhos, ensinando os mais novos. Parece que estarão sempre.

Mas não estarão.

Um dia partem.

E quando partem, percebemos que junto delas vai embora uma parte daquilo que somos.

Toinha carregava consigo uma espécie de biblioteca viva. Uma biblioteca sem estantes, sem páginas numeradas e sem capa. Uma biblioteca feita de histórias, crenças, gestos, cantos, orações, receitas de fé e conhecimentos que só sobrevivem quando alguém se dispõe a aprender e a continuar.

Por isso, sua partida não deveria ser apenas motivo de tristeza.

Deveria ser também um chamado.

Um chamado para que Diamantino olhe para seus guardiões da cultura enquanto eles ainda estão aqui. Para que seus nomes sejam registrados, suas histórias contadas e seus conhecimentos reconhecidos.

Porque não adianta homenagear depois que a última bandeira já foi recolhida.

Não adianta aplaudir quando a voz já silenciou.

Não adianta descobrir o valor de uma pessoa somente quando sentimos a sua falta.

Hoje, talvez Diamantino devesse parar por um instante.

Quem sabe até decretar um feriado simbólico, não pela morte de Toinha, mas pela vida que ela dedicou àquilo que muitos consideram pequeno, mas que é gigantesco: a nossa cultura popular.

A partida de Toinha deixa uma pergunta para todos nós:

Quem serão os próximos a carregar essa história?

Quem vai percorrer a bandeira?

Quem vai manter as festas?

Quem vai ensinar as rezas?

Quem vai benzê-los quando os antigos já não estiverem?

Quem vai contar aos nossos filhos que antes deles existiram homens e mulheres que mantiveram viva a alma de Diamantino?

Toinha fez a parte dela.

Agora, cabe a nós não deixar que sua memória seja apenas uma fotografia antiga guardada em alguma gaveta.

Que seu nome seja lembrado.

Que seu sorriso permaneça na memória de quem teve a felicidade de conhecê-la.

Que sua fé continue iluminando os caminhos daqueles que seguem lutando pela cultura.

E que Deus receba com carinho essa mulher guerreira, essa baluarte anônima, essa guardiã da cultura diamantinense que hoje nos deixa.

Partiu Antonia.

Partiu Toinha do Popino.

Mas aquilo que ela ajudou a manter vivo não pode partir com ela.

Porque enquanto houver alguém que se lembre de Toinha, conte sua história e continue uma tradição que ela tanto amou, Toinha continuará caminhando pelas ruas de Diamantino.

Agora, não mais com os passos apressados de quem tinha pressa de chegar.

Mas com os passos eternos de quem deixou sua marca na história.

Descanse em paz, Toinha.

Diamantino agradece. A cultura agradece. A memória agradece.

 
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